Vida Contemplativa

agosto 18, 2017


O interesse e entusiasmo pela vocação dos consagrados por parte dos leigos, e até mesmo de outros seguimentos que servem a Deus na Igreja, é realmente um encorajamento para os consagrados perseverarem em sua doação a Deus e aos irmãos, e no empenho constante para progredirem na perfeição de seu estado.

Em contato com sacerdotes e religiosos de vida apostólica, vocês podem apreciar concretamente o valor dessas vocações. Não é assim a vida contemplativa, retirada do convívio social, pouco conhecida e menos ainda compreendida, o que não nos surpreende nem ofende. Reconhecemos que é difícil entender uma forma de vida que ultrapassa os costumeiros esquemas humanos.

Peço, pois, licença para lhes falar um pouco sobre nossa vocação específica.

A denominação “contemplativa” é oficial na Igreja para designar esse tipo de vida. Mas não deve ser entendida de modo material, como se contemplação fosse visão corporal ou mesmo espiritual.

Como os demais cristãos, os contemplativos vivem a fé, embora mais intensa. Esta fé intensa é dom que Deus lhes concede como condição essencial, que os torna capazes de responder ao especial chamado do Senhor. Em vez de “vida contemplativa” poderíamos chamá-la de “vida de oração” ou “vida orante”.

Geralmente se acredita no valor e necessidade da oração. Mas se justifica consagrar a ela uma vida inteira?

Se esta vida é uma vocação, um chamado de Deus, isto basta para justificá-la. Nada impede, porém, que procuremos entender um pouco suas razões, para melhor apreciarmos seu devido valor.

A vida contemplativa não é tanto uma fábrica produtora de orações, mas sim formadora de pessoas transformadas em oração. Não estamos aqui para resolver os problemas da humanidade, mas para ir de encontro ao PROBLEMA por excelência: o da ausência de Deus no coração do homem. E, com nossas orações insistentes, mover o coração de Deus para que se volte para a humanidade e a salve, a exemplo de Moisés, que, orando sobre uma colina, obtém vitória para Josué e os guerreiros que lutavam na planície. De fato, quando Moisés descia os braços orantes, os inimigos prevaleciam (Êxodo 17, 8-13).

Temos o exemplo de Cristo e Maria, que se consagraram à oração, no silêncio de Nazaré. Cristo o fez por 30 anos de sua vida na terra. E durante a vida pública, Jesus passava muitas noites em oração; e sua advertência é categórica: “Orai sem cessar”.

Segundo santo Agostinho, a oração é a elevação da alma a Deus. Na vida contemplativa esta elevação não é intermitente, realizada apenas nas horas regulamentares de oração, mas constitui um estado de alma permanente e consciente, na medida em que o contemplativo o desenvolve.

O contemplativo é, portanto, uma oração viva na presença de Deus, tal como um círio aceso sobre o altar. Oração existencial, vidas transformadas em oração pela fé e pelo amor a Deus.

Vale lembrar que o contexto “ora et labora” é parte integrante na vida dos monges e monjas, cada qual segundo sua Regra de Vida. A vida no mosteiro, por ser toda ela organizada em vista de nossa busca de Deus, almeja a harmonia entre todas as atividades imprescindíveis à vida humana; entre elas, o trabalho que cada monja exerce, designado por sua abadessa, tem seu momento muito bem estabelecido em nosso dia.

E qual a finalidade dessas vidas transformadas em oração pela fé e pelo amor a Deus?

Deus quer reservar só para Si almas que Ele escolhe gratuitamente, só por Sua bondade. Destes íntimos amigos seus, Ele faz intercessores junto a Ele, e canais de suas graças para toda a humanidade.

E a Clausura?Para levar vida de oração é preciso se isolar e se trancar no convento? Por acaso Cristo e Maria viveram enclausurados?

Evidentemente, Jesus e Maria, os mais perfeitos orantes, não viveram em clausura, justamente por serem perfeitos. Não precisavam de condições especiais que nós, criaturas limitadas e imperfeitas, necessitamos.

A clausura cria e protege o ambiente de silêncio e recolhimento que a mente precisa para se concentrar em Deus e não se dispersar por outros objetos.
Este recolhimento não isola os contemplativos dos demais irmãos, nem os torna indiferentes às suas lutas e sofrimentos.  Pelo contrário, levam-nos todos na alma para apresentá-los a Deus e lhes obter graças que necessitam.

Ao dom de Cristo-Esposo que na cruz ofereceu todo o seu corpo, a monja corresponde de forma semelhante com o dom do « corpo », oferecendo-se com Jesus Cristo ao Pai e colaborando na obra da redenção. Assim, a separação do mundo confere à toda a vida claustral um valor eucarístico; « para além do aspecto de sacrifício e expiação, adquire também o de agradecimento ao Pai, participando na ação de graças do Filho dileto » (Verbi Sponsa,15)

 Concluindo...

A instrução Apostólica Verbi Sponsa afirma: De fato, as monjas, vivendo ininterruptamente « escondidas com Cristo em Deus » (Col 3,3), realizam em sumo grau a vocação contemplativa de todo o povo cristão e tornam-se, assim, um sinal fulgurante do Reino de Deus (cf. Rom 14,17), « honra da Igreja e fonte de graças celestes » (Verbi Sponsa 6 e 7). 

Podemos comparar a nossa forma de vida como as raízes das árvores que vivem escondidas, mas que são fonte de sustentação e seiva para que a planta cumpra seu papel na natureza; somos um sinal profético e antecipação do que viveremos na eternidade: com Deus e em Deus.
Enfim, podemos dizer ainda que nós contemplativos somos como aquelas lâmpadas acesas nas capelas da Igreja, lembrando a todos que Alguém está aí.  

Irmã Francisca Beatriz de Maria, OIC 
Mosteiro Imaculada Conceição e São José, Piratininga/SP
(Baseado no relato sobre a vida contemplativa
de Madre Beatriz de Jesus Hóstia, OIC,
Mosteiro Porta Celi, Ponta Grossa/PR)

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