Ser instrumento nas Mãos de Deus

agosto 19, 2017

Um olhar lançado à nossa história, ao nosso cotidiano e às nossas origens, pode revelar os traços de nosso chamado, escritos por Deus e por nós mesmos. A vocação, como desejo e caminho, é posta em nosso coração pelo próprio Deus. Como resposta, vai sendo dada por nós, à medida que nos abrimos à escuta, e damos passos concretos na busca da correspondência a esta voz que nos chama: "Segue-me!". Confira o testemunho vocacional de Frei José Antônio, OFM.

Minha mãe sempre nos ensinava as primeiras orações e nos incentivava a participar das atividades da Igreja, ler a Bíblia, rezar o Terço e participar das festividades da Comunidade.

Meu relacionamento com ela foi bem aberto, a ponto de pedir opinião pra tudo; porém, essa abertura foi diminuindo à medida que passei a pôr em prática as minhas próprias decisões, buscando me descobrir melhor e me localizar na história.

Penso que foi neste tempo que passei a ter uma postura mais silenciosa. Vejo o silêncio como algo que é muito bom, pois me permite refletir a todo tempo, ajuda a perceber melhor as pessoas que estão à minha volta e a interagir com elas conforme nos aproximamos e nos relacionamos. Vejo que, nesse sentido, sinto-me bem, pois o silêncio me ajuda a acolher bem a todas as pessoas como elas são, e a respeitá-las em suas ideias e opiniões, mesmo que estejam contrárias às minhas.

Na questão religiosa, a minha Família possui uma diversidade de influências culturais: há espíritas, evangélicos protestantes e católicos. Mesmo assim, procura-se conservar o espírito de unidade, de partilha, de respeito, de Família que somos. Isso me ajuda a compreender melhor o Amor e a Misericórdia de Deus para com todos os povos, em especial para cada uma das pessoas que O buscam de coração sincero e verdadeiro.

Minha infância foi um tanto comum como o foi para os meus irmãos. Brincávamos entre nós mesmos - raramente íamos até a casa de outros conhecidos ou familiares -, quase sempre na companhia dos nossos pais. Isso devido à dificuldade de locomoção de todos, pois era mais fácil recebermos algumas visitas do que sairmos para outros lugares.

Sempre fui uma criança reservada, mas que naturalmente fazia amizades. Era bem acolhido e respeitado pelas pessoas. Desse período, tenho lembranças de frequente presença dos familiares em nossa casa, a passeios e visitas. Isso sempre foi muito bom e importante para mim, e me ajuda a valorizar a minha família e a nossa história, pois esse contexto sempre trazia consigo algo de espiritualidade que proporcionava ânimo para todos.

Na escola, muito me chamava a atenção as aulas de Ensino Religioso. Na Igreja, acompanhava meus familiares nas Missas e encontros devocionais na comunidade, formada por chácaras.

Em minha adolescência estive bastante ocupado com a experiência do meu primeiro emprego, que me proporcionava conhecer a cidade, participar de atividades e compromissos ligados ao trabalho, aos estudos, às tarefas doméstico-familiares, e parte da formação catequética na comunidade-igreja.
Minhas atenções estavam voltadas para as necessidades da minha família. Por isso a minha forte dedicação aos estudos e ao trabalho, sempre buscando ânimo e forças na espiritualidade, incentivado por minha mãe. Ao passo que os meus irmãos e irmãs foram se despertando em busca de relacionamentos para o matrimônio, para mim era praticamente ao contrário, não me sentia atraído por esse desejo, mas sim em me resguardar para “algo diferente”, que hoje entendo e vejo como direção para a minha descoberta vocacional.

Percebo que muito aprendi, adquirindo posturas de responsabilidade, crescimento no relacionamento com as pessoas, na valorização da vida e dos bens adquiridos, e, sobretudo, na percepção e sentimento da presença de Deus nos fatos e na História.

Minha satisfação era poder contribuir para atender as necessidades da família. Meu divertimento estava sempre dentro do contexto do trabalho, da escola, da comunidade-igreja, e familiar. Ao mesmo tempo em que me proporcionavam amadurecimento, também contribuíam para a superação nas dificuldades. Vejo que sempre obtive um bom desempenho e, de certa forma, uma facilidade em aprender e desenvolver as atividades propostas.

Busquei realizar um desejo que havia despertado na ocasião dos estudos de Ensino Fundamental, na 8ª série (1989): fui estudar, no Colégio Agrícola, o Curso Técnico em Agropecuária, em tempo integral e bem dinamizado, com duração de três anos: de 1994 a 1996. Nesse período fiz uma experiência bastante intensa e muito importante. Aproveitei ao máximo que pude e, durante esse tempo de estudo, aprendi a me conhecer melhor e a me relacionar com as pessoas com mais respeito e responsabilidade. Pude também exercitar, no contexto religioso, tomando como hábito, a leitura frequente das Sagradas Escrituras e participação nas Missas Dominicais, na cidade de Vera Cruz/SP, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Foi a primeira experiência de estar longe dos meus familiares, e por vontade própria, por sinal muito importante e valiosa, pois contribuiu no meu autoconhecimento e amadurecimento diante dos fatos e da própria história.

Este período também foi uma “resposta de Deus para a minha vida”, pois vivia como se fosse o lugar que Ele me concedeu para a vida toda, e assim aproveitava e me dedicava com plena satisfação. Em outras palavras, foram experiências de “Vida-Fraterna” e “Partilha de Vida”.

No período entre 1997 e 2000, fiz uma experiência forte de participação na comunidade-igreja, a partir da motivação das Missões Populares, com a participação da Renovação Carismática, Equipes de Terço e Pastorais. Este período me ajudou a exercitar a organização no uso do tempo, e conciliar a realização de várias atividades; proporcionou também o engajamento na comunidade e perseverança na fé. Pude contar com a visão da comunidade, que me apontavam sinais do “Chamado de Deus” para a minha vida.

Durante esse período, também acompanhava as programações noturnas da rádio “Milícia da Imaculada”, Revista “O Mílite” – São Maximiliano Maria Kolbe, que contribuíram para a vivência e acompanhamento na Espiritualidade. O que me ocorreu também nesta ocasião, de muita importância, foi, em consequência da Devoção Mariana ao longo dos anos anteriores, o desejo de me consagrar a Deus voluntariamente, por meio da Virgem Maria, pela qual sempre me senti amparado nas diversidades do dia-a-dia, e assim o fiz, de modo particular, e me colocando em disponibilidade para com Deus, pelas mãos da Virgem Maria, me comprometendo a observar e refletir melhor a respeito do que Deus quer de mim à partir  da vida de exemplo da Mãe do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Desde então percebi que me ocorria com mais intensidade o “chamamento ao recolhimento e ao silêncio”, que por sinal me faz muito bem, e contribui para melhorar no desenvolvimento das atividades que me compete e perceber melhor as pessoas que se dirigem até mim e, de alguma forma, interagir conforme a necessidade.

Em 2001 surgiu a possibilidade de participar do concurso público da Prefeitura de Marília, no qual fui aprovado com uma ótima classificação, tendo escolhido o cargo de auxiliar de serviços gerais. Mas nem fazia ideia de onde seria o local em que eu iria trabalhar. Para a minha surpresa, na ocasião da escolha do local para trabalhar, fui o terceiro a fazer a escolha, e pude optar pela última vaga que havia disponível na EMEI Creche Primavera, que fica a duas quadras da casa da minha mãe, e a meia quadra da Capela Nossa Senhora de Lourdes, na qual eu participava com a comunidade. Iniciei o trabalho no dia 18 de março de 2002; foi o melhor dos presentes que eu havia desejado para mim (meu aniversário é dia 20 de março): um local de trabalho em que eu pudesse me sentir realizado, conciliando a vida familiar, a comunidade-igreja e a profissão, e o melhor de tudo, com as crianças! 

Depois de três anos de espera, desempregado em carteira, pude sentir mais uma vez o viver da Providência de Deus na minha vida e na minha família, ao cultivar a perseverança e firmeza na fé diante das adversidades. Sem assumir compromissos de comunidade, procurava participar toda semana das Missas e, assim, me colocar em disponibilidade para com Deus, como melhor Lhe aprouvesse. Assim, mantinha uma discreta participação de presença na comunidade. Sentia-me guiado pelo Espírito Santo de Deus por onde quer que eu fosse.

Durante oito anos fiz esta experiência de vida, conciliando este conjunto de graças na própria comunidade. Aos poucos, voltei a participar das atividades da Igreja, sempre recebendo um convite, que me indicava por onde eu deveria caminhar. Assim, fui percebendo as “Mãos de Deus” me conduzindo e me encaminhando para o discernimento vocacional e para a disponibilidade radical de vida por meio da Igreja. A experiência de vida na EMEI Creche Primavera contribuiu muito para essas tomadas de decisão na minha vida, com a ajuda e colaboração de cada pessoa com as quais eu convivi durante este tempo.

Foi durante este tempo que se deu o meu encaminhamento vocacional e o meu “Sim” definitivo ao chamado de Deus para a Vida Religiosa Consagrada na Ordem dos Frades Franciscanos Menores.
A partir dos encontros e retiros de discernimento vocacional, fui atraído e convencido de que este era o caminho que devia percorrer. Passei a perceber e a compreender que a minha vida toda sempre esteve ligada ao “jeito Franciscano” de ser. E, de forma discreta e valiosa, São Francisco e Santo Antônio sempre fizeram parte da minha história de vida. E assim, descobri que o “ser religioso” é a essência que me completa, que é “ser livre” para viver a disponibilidade como instrumento nas mãos de Deus, por meio da Igreja, “ser sinal” da presença de Deus no Mundo, “imitando” o Cristo Senhor Nosso, “servir e amar” sem medidas, de forma pobre e humilde, a exemplo de São Francisco de Assis.

Sou uma pessoa tranquila, educada, amigável, mas que também sabe defender sua opinião e ponto de vista quando necessário; calado, mas observador, dedicado, calmo, cuidadoso, zeloso, persistente, perseverante, detalhista, discreto, acolhedor, sensível, mas equilibrado; atencioso, organizado, e tenho feito a experiência do silêncio com o propósito de exercitar o cuidado com a pronúncia das malícias, as ambiguidades de entendimentos, a seriedade com os compromissos, as fofocas e as maldições, a abertura para acolher e ouvir melhor as pessoas que se aproximam de mim, a invasão na conversa alheia, o refletir e pensar melhor antes de responder, fazer uso da escuta da Palavra de Deus e cultivar o que Ela me propõe, para transformá-La em obras concretas na minha vida (“Cessem as palavras e falem as obras”), prestar mais atenção naquilo que falo e faço, compreender melhor o sentido da obediência, transformar as minhas próprias vontades em serviço à Fraternidade, me conhecer e perceber a mim mesmo e o que devo fazer para estar em disponibilidade para contribuir com todos e com tudo que estão à minha volta, com respeito e responsabilidade.

Para mim, São Francisco de Assis é uma pessoa comum, como qualquer outra, porém, em suas buscas de realização pessoal soube reconhecer o chamado de Deus, deixou-se transformar por Seu Amor, e se fez “sinal vivo” da presença do Cristo em nosso meio, no seu tempo e na eternidade. É também um exemplo de vida atualizado e sempre presente.

Ao me colocar à disposição para o acompanhamento e discernimento vocacional na Ordem dos Frades Menores, pude constatar e confirmar a minha busca e meus anseios, por me sentir realizado e completo, satisfeito e, também, que é por este caminho que devo seguir, pois, a cada dia, em meio às diversidades e dificuldades, encontro no exemplo de São Francisco de Assis um novo ânimo e motivação para seguir perseverante por esta estrada.

Com isso já se passaram 8 anos nesta caminhada franciscana! Neste ano de 2017, estou estudando o 1º ano de Teologia e me preparando para a Profissão dos Votos de Consagração na Vida Religiosa para a vida toda. Por isso, aproveito para pedir as orações de todos vocês, por minha vida e vocação, para que eu possa permanecer fiel e perseverante no chamado que Deus me fez. 

Abraços fraternos de Paz e Bem, e que Deus abençoe a todos vocês!
Na Alegria do Evangelho, Frei José Antônio, OFM.

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